19 de março de 2011

Segundo e meio e quase um beijo


Entro naquela máquina do tempo, aquela que aparentemente gostas de ouvir. Sem nada temer mas tudo desejar, rastreio cada vazio por entre as dezenas de pessoas que desfrutam do seu tempo, mas sem nada encontrar. A nuvem de vazio condensasse em mim esperando por aquele momento, aquele momento em que a chuva cai sobre ti e a tempestade se gera em mim. E eis que então o tempo pára por segundo e meio, aquele infinitesimal intervalo de tempo em que minha íris cruza-se com a tua, um tornado de pensamentos irracionais e uma trovoada de emoções se gera e se personifica em cada gota que cai sobre ti. Um arco-íris se eleva e imediatamente se esconde de vergonha quando se depara com a tua perfeita imensurável beleza, que contagia o espaço e o tempo, que se equipara à plenitude dos céus, aos mistérios do oceano e à dimensão deste universo que nunca se esgota.      

Aprecio aquele teu gesto tímido em que tocas no teu sedoso cabelo e por momentos finges não olhar. Tentas evitar a inevitável estória que eu e tu estamos prestes a escrever naquele livro que mais ninguém pode ler… E eis então que ganho aquela coragem que raramente a minha timidez me deixa alcançar, forçado por aqueles teus olhos que não param de me olhar, que chamam e gritam silenciosamente por mim. Dirijo-me a ti contrariando todos os meus impulsos cerebrais, que nada servem quando meu corpo é impulsionado pelo meu coração, e sinto que ficas tão ou mais nervosa quanto eu, mas que adoras sentir-te assim. Chego ao pé de ti e não te digo absolutamente nada pois aquela conversa era já longa demais. Olho-te com confiança e correspondo aquele pequeno maravilhoso sorriso que só tu sabes fazer, entre aquele batôn discreto e sensual que completa na perfeição a cor rosada com que ficas quando estás ao pé de mim. Agarro a tua mão pelas pontas dos teus dedos macios, da maneira discreta mas suficientemente forte para o teu corpo notar pela presença do meu. Sinto aquele arrepio frio que me degenera e me conforta em todas as palavras que os nossos corpos recitam em poesia e que eu aqui escrevo em prosa. 

Liga-se a música, o espaço pára, os corpos congelam e o tempo é infinitamente nosso. A melodia toca-se em nós sem saber o seu nome e a sua origem, mas chega-nos saber que é perfeita para aquele momento. Minha mão ganha vida e explora a geometria perfeita das curvas do teu corpo, sem nunca se faltar ao respeito, pois a tentação da sensualidade que exibes não se esgota em si mesma. Ela encontra o ponto perfeito da tua cintura e pede-te permissão para dançar…Tuas mãos correspondem timidamente dirigindo-se para meus ombros agarrando-se em mim e fechando aquele capítulo perfeito que nossos corpos escreveram.

Iniciamos um novo soneto que se inspira na forma graciosa como nos balanceamos no espaço, despreocupados mas ansiosos pelo verso seguinte. Sussurro-te ao ouvido palavras desajeitas e ridículas mas que adoras, ao qual correspondes com uma explosão de arrepios que se deixam sentir como a serena perfeição do teu perfume. Encosto minha cabeça na tua e respiramos os dois bem fundo, certos que estamos preparados e ansiosos por ler aquele verso seguinte, que deverá ser recitado de forma quase perfeita. O beijo é quase certo e vem a caminho, fechamos então os olhos e tudo se esquece, tudo se sente, o mundo dá voltas sem parar e o universo resume-se naquele momento.

Abro os olhos e aquele segundo e meio acaba-se. Tu passas por mim e quase que nem te dás conta, ainda que desconfie que olhaste de maneira diferente para mim. Eu passo e fingo ser indiferente para ti. Afinal a timidez e razão continuam a falar comigo todos os dias e não foi desta que deixei de escrever estórias de prosa em forma poesia. Mas sei contudo que estás presa algures no meu tempo, que este tempo é efémero e que poderei voltar ao teu tempo, mas o meu tempo não espera, tu também não páras e nem sei se queres mesmo parar este tempo. 

Sei que não posso, sei que não devo, sei que quero, não compreendo e tu fazes de conta que não compreendes, mas estou certo que se compreendesse nada seria o mesmo, o tempo seria outro e esta estória seria diferente.

escrito por Fábio Martins
18 de Março de 2010


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